Glifa - POEMMA Digital | Branding e Identidade Visual
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Glifa

CONTEXTO & DESAFIO
O mercado do livro no Brasil vive uma contradição. Há interesse pela literatura, mas o hábito vem perdendo força. A 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil mostrou que, em 2024, apenas 47% da população com cinco anos ou mais havia lido ao menos parte de um livro nos três meses anteriores. Pela primeira vez na série histórica, os não leitores se tornaram maioria, com 53%. Em relação a 2019, o país perdeu cerca de 6,7 milhões de leitores; na comparação com 2015, são 11,3 milhões a menos. Ao mesmo tempo, há sinais de que a relação social em torno dos livros está ganhando espaço. Em 2025, 18% dos brasileiros adultos compraram ao menos um livro, cerca de 3 milhões de consumidores a mais que no ano anterior. Entre os consumidores, 65% acompanham criadores de conteúdo literário e 30% dizem descobrir lançamentos por indicação de pessoas próximas. O livro circula pelas conversas, pelos vídeos e pelas recomendações, mas essa troca ainda acontece de forma dispersa. Na Retratos da Leitura, apenas 2% dos leitores disseram que o último livro lido havia sido indicado por algum coletivo ou grupo do qual participavam, como um clube de leitura. Outros 23% não haviam recebido indicação de ninguém em especial. Os amigos, por outro lado, apareceram como fonte de indicação para 19%. Há uma dimensão coletiva já presente no comportamento do leitor, mas poucos espaços conseguem transformá-la em uma relação contínua.
Foi a partir dessa lacuna que nasceu a Glifa. A marca foi pensada para pessoas que gostam de livros, mas sentem falta de um lugar onde a leitura possa continuar depois da última página. Um lugar para descobrir títulos, acompanhar ciclos de leitura, registrar o que foi lido, conversar sobre interpretações diferentes e construir repertório junto com outras pessoas. Os clubes de leitura mostram como a convivência pode aproximar novos públicos dos livros e estimular vínculos entre leitores. O próprio crescimento de iniciativas desse tipo reforça uma ideia importante para a marca: o prazer de ler também passa pela possibilidade de conversar sobre aquilo que se leu.
O desafio da Glifa, portanto, estava em criar uma marca de leitura que tivesse densidade cultural sem assumir uma postura acadêmica, e que estimulasse a participação sem transformar a leitura em desempenho. Muitos leitores convivem com a sensação de que existem livros obrigatórios, interpretações mais inteligentes ou uma quantidade ideal de páginas para cumprir. A Glifa parte de outra postura: toda pessoa chega a um livro com uma história diferente e sai dele com uma leitura própria. Dessa ideia nasceu a tagline “Ler Junto.”. Curta e direta, ela concentra o posicionamento inteiro da marca. A leitura continua sendo uma experiência pessoal, mas ganha novas camadas quando encontra a leitura do outro.

 

ESTRATÉGIA
A estratégia foi construída a partir da leitura como troca. Livrarias ajudam a encontrar livros, clubes trabalham a curadoria e plataformas de resenhas registram opiniões. A Glifa busca conectar esses momentos dentro de uma comunidade, fazendo com que tais ações façam parte de uma mesma experiência. O histórico de leituras também ganhou importância, entendendo a biblioteca de cada pessoa como um registro de diferentes fases e interesses. O tom de voz foi definido como próximo, curioso e acessível, capaz de falar sobre literatura sem criar uma hierarquia entre leitores. Frases como “Todo livro tem mais de uma leitura, encontre a sua”, “Alguns livros você lê. Outros livros leem você.” e “Não existe leitura errada” ajudam a construir uma marca que incentiva repertório e conversa sem transformar a leitura em obrigação ou desempenho.

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DESENVOLVIMENTO
A identidade visual foi construída a partir da tradição gráfica dos livros e de uma linguagem mais espontânea e contemporânea.
 
O logotipo em caixa baixa usa uma tipografia desenvolvida com curvas amplas e um “g” particularmente reconhecível. Tal escolha foi feita para preservar referências do universo editorial, mas evitar uma aparência clássica demais. Suas formas permitem grandes ampliações, cortes e enquadramentos, fazendo com que o próprio nome Glifa possa funcionar como matéria gráfica em capas, revistas, marcadores e outras aplicações. As cores mais vivas funcionam como pequenos sinais espalhados pela identidade: quadrados, pontos, encontros entre formas e marcações sobre fotografias. Em algumas peças, esses elementos são acompanhados de linhas finas, criando relações entre diferentes pontos da composição. A lógica é simples e conversa diretamente com o posicionamento. Uma leitura encontra outra, uma indicação leva a um novo livro e um comentário pode mudar a percepção de uma história. O sistema de ilustração levou essa ideia para um território mais autoral. Os personagens são construídos como colagens, combinando recortes de páginas, fotografias, cabelos, tecidos, formas geométricas e texturas impressas. Nenhum deles é completamente regular ou parecido com o outro. Essa diversidade visual traduz a maneira como cada leitor monta sua própria interpretação a partir do texto e daquilo que já viveu. As páginas de livros incorporadas aos corpos reforçam essa relação sem recorrer aos símbolos mais previsíveis do universo literário. Os personagens também dão humor e humanidade à marca, ampliando sua capacidade de falar com públicos diferentes sem infantilizar a comunicação. Ilustrações 100% humanas. A fotografia segue uma lógica complementar. Imagens em preto e branco recuperam uma memória documental da leitura: pessoas lendo em poltronas, trens, livrarias e outros espaços cotidianos. Já as fotografias em cor, muitas delas com luz direta e uma estética mais imediata, colocam o livro no presente, entre roupas, encontros, cafés, bolsas e objetos do dia a dia. Essa combinação ajuda a mostrar que ler pode ser um momento íntimo e, ao mesmo tempo, fazer parte da vida social. Em vez de apresentar o leitor como uma figura isolada em uma biblioteca idealizada, a direção de imagem coloca os livros onde as pessoas realmente estão. A tipografia também participa dessa mistura. Os títulos serifados recuperam a escala e o ritmo de capas e páginas editoriais, enquanto textos de apoio com aparência monoespaçada lembram máquinas de escrever, fichas, notas e registros pessoais. Essa segunda voz aparece principalmente nas informações funcionais, nos convites para ciclos de leitura e em pequenos textos da marca.
 
A identidade foi então levada para os pontos em que a comunidade ganha forma. A revista Glifa transforma curadoria e conteúdo em um objeto periódico; os ciclos de leitura dão um motivo para voltar e encontrar outras pessoas; fórum, notícias, análises e a área dedicada às próprias leituras organizam essa experiência no digital. Marcadores, bolsas, peças de roupa e materiais impressos levam os personagens e os códigos gráficos para fora da tela. A marca passa a circular junto com os livros e com seus leitores, o que dá sentido concreto à proposta de “Ler Junto”. Em todas essas aplicações, a Glifa mantém a mesma ideia central: uma história pode começar em uma página, mas aquilo que fazemos com ela depende das pessoas que encontramos depois.
Date

setembro 2, 2026

Category

Branding, Identity